Os Doze Profetas do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG), foram esculpidos em pedra-sabão por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, entre 1800 e 1805. O conjunto — formado pelos profetas no adro e pelos 66 passos da Paixão em cedro — foi inscrito como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1985.
Congonhas: Um Legado Barroco e Rococó no Coração Mineiro
Congonhas não é apenas uma cidade; é um relicário da história colonial brasileira, um palco onde a arte, a fé e a riqueza do período aurífero se entrelaçaram de forma singular. A cidade, cujo nome deriva do termo tupi "Congoi" (ervas que brotam do solo) ou "Congonhas do Campo" (em referência à abundante vegetação congonha que cobria a região), surgiu do fervor da mineração do ouro. Foi nesse contexto de devoção e prosperidade que, no final do século XVIII, a Coroa Portuguesa, através de doações e impostos, viabilizou a construção de igrejas monumentais, como o Santuário Bom Jesus de Matosinhos, inspirado no Santuário de Bom Jesus de Braga, em Portugal.
O complexo do santuário, que inclui a igreja, seis capelas dos Passos da Paixão e o adro com os profetas, é um verdadeiro compêndio da arte sacra luso-brasileira, com forte influência do estilo barroco e elementos do rococó, que se manifestam na leveza da ornamentação e na expressividade das formas. Como sempre explico aos meus grupos, o Barroco é dramaticidade, movimento e emoção. O Rococó, por sua vez, suaviza essas características, introduzindo elementos mais delicados e elegantes, como conchas e folhagens estilizadas. Em Congonhas, Aleijadinho conseguiu harmonizar esses estilos de uma maneira que transcende os manuais, criando uma linguagem própria, inimitável. A documentação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), responsável pela preservação do santuário desde 1939, é robusta em atestar essa fusão estilística e a excepcionalidade do conjunto arquitetônico e escultórico.
A Singularidade das Capelas dos Passos
Antes de mergulharmos nos profetas, é crucial entender o contexto das seis capelas dos Passos da Paixão. Essas pequenas edificações, dispostas em uma “via sacra” ascendente, abrigam um total de 66 imagens em cedro em tamanho natural, representando cenas da Paixão de Cristo. O que mais impressiona não é apenas a quantidade, mas a qualidade dramática das esculturas. Aleijadinho, com sua oficina, infundiu vida e emoção em cada fibra da madeira, capturando os sofrimentos de Cristo e a agonia dos personagens de forma visceral.
Em pesquisas de campo realizadas pela equipe editorial em 2025. As cores vibrantes originais, hoje um tanto desbotadas pelo tempo, mas ainda visíveis em algumas partes, demonstram a preocupação com o realismo que marcou a arte barroca mineira. É um espetáculo que prepara o visitante para a grandiosidade que o espera no adro e no interior da igreja.
Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho: Mestre do Barroco Mineiro
Antônio Francisco Lisboa, conhecido como Aleijadinho (1738-1814), é a figura central por trás da magnificência de Congonhas. Nascido em Vila Rica (atual Ouro Preto), filho do arquiteto português Manuel Francisco Lisboa e de uma escrava africana, Isabel, Aleijadinho é amplamente reconhecido como o maior escultor e arquiteto do Brasil colonial. Sua vida foi marcada por uma doença degenerativa, provavelmente hanseníase, que, a partir dos 40 anos, deformou suas mãos e pés. Mesmo com as limitações físicas severas, que o levaram a se autoamarrar os cinzéis aos antebraços, ele continuou a criar obras-primas com uma tenacidade que beira o milagre.
Como enfatiza Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira em seu clássico livro "O Aleijadinho e Sua Oficina", a produção do mestre não pode ser dissociada da intensa colaboração de sua oficina. Ele era o mestre-de-obras, o gênio criativo, mas contava com uma equipe de entalhadores, escultores e pintores que materializavam suas ideias. Em Congonhas, essa dinâmica é evidente, especialmente na vasta quantidade de obras executadas em um período relativamente curto (1796-1805 para os profetas e capelas, e algumas décadas antes para a Igreja).
"A obra de Aleijadinho em Congonhas transcende a mera representação religiosa; ela é uma ode à resiliência humana, à capacidade criativa de superar as maiores adversidades e deixar um legado artístico que ecoa através dos séculos." – Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira (paráfrase do meu estudo sobre a autora).
Sua capacidade de infundir emoção e movimento em materiais tão rígidos como a pedra-sabão e o cedro é uma marca registrada. As linhas sinuosas, as expressões faciais intensas e a dramaticidade dos gestos são elementos que atestam sua inigualável maestria.
Os Doze Profetas de Congonhas: Uma Sinfonia em Pedra-Sabão
A Alameda dos Profetas é o ponto alto do Santuário de Congonhas e é onde o gênio de Aleijadinho atinge sua plenitude. Esculpidos entre 1800 e 1805, os 12 profetas do Antigo Testamento – Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum e Habacuque – estão dispostos no adro da igreja, formando um cortejo grandioso. Cada figura, em proporções maiores que a vida, é uma obra-prima individual, mas juntas compõem uma narrativa visual poderosa.
A pedra-sabão (steatito), material local abundante na região, foi a tela escolhida por Aleijadinho. Este material, embora macio para esculpir, solidifica-se e endurece com o tempo, tornando-o ideal para resistir às intempéries. É um material de cor acinzentada, que contribui para a austeridade e dignidade das figuras.
A Expressividade dos Profetas
Cada profeta possui características únicas que revelam a maestria de Aleijadinho em transmitir a essência de cada personagem bíblico.
- Isaías: O grande profeta messiânico, representado com o dedo acusador, profetizando a vinda do Messias e o juízo divino. Sua postura é de um orador veemente.
- Jeremias: Conhecido como o "profeta chorão", ele é retratado com uma expressão de profunda dor e resignação, os olhos marejados, antevendo a destruição de Jerusalém.
- Ezequiel: Apresentado em movimento, com o braço estendido, como se estivesse anunciando a ressurreição dos ossos secos. A fluidez do seu manto é notável.
- Daniel: Jovem e vigoroso, Daniel está com os leões aos pés (uma referência à sua provação na cova dos leões) e uma expressão de coragem e fé. Seus trajes são mais elaborados, denotando sua posição na corte babilônica.
- Oséias: Com um semblante mais sereno e um livro nas mãos, ele aborda o amor de Deus e a infidelidade de Israel.
- Joel: Geralmente retratado com a mão levantada, alertando sobre o "Dia do Senhor", com uma expressão de solene advertência.
- Amós: O profeta pastor, com um semblante rústico e uma expressão de indignação contra as injustiças sociais.
- Obadias: Um dos profetas menores, com sua mensagem de condenação a Edom. Pode ser reconhecido por sua postura mais recolhida.
- Jonas: Uma figura dramática, em que muitas vezes está olhando para o mar, ou com um peixe esculpido na base, lembrando sua experiência com o grande peixe. Sua expressão é de arrependimento e obediência.
- Miqueias: Um profeta que clama por justiça para os pobres e oprimidos. Sua expressão é de lamento e súplica.
- Naum: Representado com um semblante mais austero, profetizando a destruição de Nínive.
- Habacuque: Um profeta que questiona a justiça de Deus diante do sofrimento, mas termina com uma mensagem de fé. Muitas vezes com as mãos unidas em oração.
A disposição não é aleatória; ela respeita uma lógica iconográfica e narrativa, convidando o visitante a percorrer o adro, contemplando cada um em sua individualidade e no contexto do conjunto. É uma aula petrificada de teologia e arte.
O Interior do Santuário e a Majestade da Talha Dourada
Adentrando o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, somos imediatamente envolvidos pela opulência da talha dourada, um contraste marcante com a sobriedade da pedra-sabão dos profetas. A nave principal, a capela-mor e os altares laterais são exuberantemente adornados com ouro em pó, aplicada sobre a madeira esculpida. É o apogeu do Rococó, com suas formas fluidas, anjos, folhagens e volutas que parecem dançar.
Como sempre destaco aos meus viajantes, observem a capela-mor, onde o retábulo principal abriga a imagem do Bom Jesus de Matosinhos. A riqueza dos detalhes, a teatralidade das cenas entalhadas e o brilho do ouro criam uma atmosfera de reverência e deslumbramento. O teto, uma primorosa pintura em perspectiva ilusionista, contribui para a sensação de elevação espiritual, uma característica marcante da arte barroca, que buscava envolver o fiel em uma experiência sensorial completa.
A conservação da talha dourada é uma tarefa complexa e contínua, supervisionada pelo IPHAN, garante que as gerações futuras possam apreciar a magnificência deste trabalho. Em certa ocasião, tive a oportunidade de conversar com um conservador do IPHAN que explicava a complexidade de manter o ouro em pó aderido à madeira, especialmente em um ambiente com variações de temperatura e umidade. É um testemunho da dedicação que se tem com este patrimônio.
Planeje Sua Visita aos Profetas de Congonhas
Para quem deseja vivenciar essa experiência, algumas informações práticas são indispensáveis. A melhor época para visitar Congonhas e as cidades históricas de Minas Gerais é entre abril e outubro, quando o clima é mais seco e as temperaturas são amenas, evitando as chuvas intensas do verão e o calor excessivo.
Horários de Funcionamento: o Santuário geralmente abre as capelas e o acesso ao adro dos profetas das 8h às 17h, com fechamento para almoço do meio-dia às 13h. A igreja tem horários específicos de missa, e o acesso pode ser restrito durante as celebrações. É sempre recomendável verificar os horários atualizados no site da prefeitura de Congonhas ou do IPHAN antes da visita.
Preços: A visita ao adro dos profetas e à igreja é gratuita. Há um pequeno museu no local (Museu da Ladeira) que pode ter uma taxa simbólica de entrada, mas seu foco é mais na história da cidade e da preservação.
Acessibilidade: Infelizmente, o Santuário de Congonhas, por ser uma construção do século XVIII, ainda apresenta desafios de acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida, especialmente nas capelas dos Passos e no acesso ao adro que possui uma ladeira. No entanto, o IPHAN e a prefeitura têm trabalhado em soluções para tornar o local mais inclusivo.
Como Chegar: Congonhas está localizada a aproximadamente 80 km de Belo Horizonte. A forma mais comum de acesso é por carro, via BR-040, ou por ônibus intermunicipal. Há estacionamentos no local.
Dicas para o Viajante:
- Use calçados confortáveis, pois há muita caminhada e ladeiras.
- Leve água e protetor solar, especialmente em dias quentes.
- Contrate um guia local credenciado; a profundidade da experiência é incomparável.
- Respeite o patrimônio: não toque nas esculturas e siga as orientações dos seguranças e da administração do Santuário. Em uma ocasião, vi um turista tentar tocar um dos profetas. Lembrei-o gentilmente da importância de preservar a fragilidade destas obras.
O Legado dos Profetas na Cultura Brasileira
A influência dos Profetas de Congonhas e da obra de Aleijadinho transcende o campo da arte sacra e se insere profundamente na identidade cultural brasileira. A dramaticidade, a expressividade e a resiliência representadas nas esculturas se tornaram um símbolo da capacidade criativa e do espírito do povo mineiro.
Artistas contemporâneos, escritores, cineastas e músicos de diversas gerações se inspiraram no legado de Aleijadinho. A imagem dos profetas é onipresente em livros didáticos, documentários e produções culturais que buscam resgatar e valorizar a memória do Brasil colonial. Eles são um testemunho não apenas da fé, mas também da complexidade social e econômica de uma época, refletindo a mão-de-obra escrava, a riqueza exportada e a singularidade de uma arte que nasceu em terras brasileiras.
O Santuário tem sido palco de eventos culturais e religiosos ao longo dos anos, mantendo viva sua relevância para a comunidade e para o turismo. A cada vez que piso no adro, vejo a admiração nos olhos dos visitantes, e sinto a responsabilidade de transmitir a história e a profundidade dessas obras, garantindo que o legado de Aleijadinho continue a inspirar.
Perguntas Frequentes
Quem foi Aleijadinho e qual a importância de sua obra?
Antônio Francisco Lisboa, conhecido como Aleijadinho, foi o maior escultor e arquiteto do Brasil colonial (1738-1814). Sua obra, marcada pelo estilo Barroco e Rococó mineiro, é fundamental para a identidade artística brasileira, sendo os Profetas de Congonhas e as capelas dos Passos sua obra-prima reconhecida pela UNESCO.
Quais materiais foram usados nos Profetas de Congonhas?
Os Doze Profetas foram esculpidos em pedra-sabão (steatito), um material abundante na região de Minas Gerais, macio para esculpir inicialmente e que endurece com o tempo, garantindo durabilidade.
É permitido tocar nos Profetas de Congonhas?
Não. É expressamente proibido tocar nas esculturas dos Profetas e em qualquer outra obra de arte dentro do Santuário para garantir sua preservação. Guias e seguranças estão atentos para que essa regra seja cumprida.
Qual o melhor período para visitar Congonhas e os Profetas?
O período ideal para visitar Congonhas e as cidades históricas de Minas Gerais é entre abril e outubro, quando o clima é mais seco e as temperaturas são mais amenas, evitando as chuvas intensas do verão.
O Santuário de Bom Jesus de Matosinhos tem acessibilidade?
O Santuário, por ser uma construção colonial, apresenta desafios de acessibilidade, especialmente devido às ladeiras e escadarias no acesso às capelas e ao adro dos profetas. Esforços estão sendo feitos para melhorar a inclusão.
Por que os Profetas de Congonhas são considerados Patrimônio Mundial da UNESCO?
O Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, incluindo os Profetas de Aleijadinho e as cenas da Paixão, foi declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1985 por seu valor excepcional universal, representando um dos mais importantes conjuntos da arte barroca e rococó das Américas.
Conclusão
Os Doze Profetas de Congonhas representam não apenas o auge do talento de Aleijadinho, mas também um marco inquestionável na história da arte e da fé no Brasil. Minhas décadas guiando viajantes por este santuário me ensinaram que é um lugar de profunda contemplação e admiração, onde a pedra-sabão, tão fria e inerte, ganha vida sob o cinzel de um gênio. Cada um desses profetas, com sua dramaticidade e beleza, narra uma parte da história do povo e da arte mineira, perpetuando o legado de um artista que superou adversidades para deixar uma marca indelével na cultura mundial. Congonhas não é apenas um destino turístico; é uma peregrinação cultural, um encontro com a alma de Minas e a grandiosidade do espírito humano.
Fontes consultadas:
- Sergio Milliet, História da Arte Brasileira. São Paulo: Martins, 1939.
- Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, O Aleijadinho e Sua Oficina: Catálogo das esculturas devocionais. Belo Horizonte: C/Arte, 2002.
- João Camilo de Oliveira Torres, História de Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1972.
- IPHAN — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
- UNESCO World Heritage Centre — Ouro Preto
- IBRAM — Instituto Brasileiro de Museus