Cultura

Literatura de cordel e xilogravura: história, técnicas e patrimônio cultural

Entenda a história do cordel, sua relação com a xilogravura e o registro como patrimônio cultural, com orientações para ler e reconhecer essas artes.

Por Redação MarcioPoncioPublicado em Revisado em 7 min de leitura
Folhetos de literatura de cordel com capas em xilogravura
Folhetos de literatura de cordel com capas em xilogravura. Foto: Emerson Pardo · CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

A literatura de cordel é uma tradição poética marcada por rima, métrica e narrativa, difundida em folhetos, recitações e, atualmente, também em meios digitais. Consolidada no Nordeste brasileiro, foi registrada pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil em 2018. A xilogravura, técnica de impressão a partir de uma matriz de madeira entalhada, tornou-se uma de suas expressões visuais mais conhecidas. Cordel e xilogravura se relacionam, mas não são a mesma manifestação: existem folhetos sem xilogravuras e gravuras produzidas independentemente de textos literários.

Como o cordel se formou no Brasil

A história do cordel brasileiro envolve relações entre poesia oral, circulação de impressos populares e trabalho de autores, editores, tipógrafos e vendedores. Os folhetos publicados no Nordeste ganharam consistência editorial a partir do final do século XIX, formando repertórios, públicos e modos próprios de composição.

Leandro Gomes de Barros é um dos nomes centrais dessa história, tanto pela produção poética quanto pela circulação de seus folhetos. João Martins de Athayde também teve papel importante como poeta e editor. A atuação desses agentes ajuda a compreender que o cordel não era apenas uma narrativa transmitida informalmente: envolvia autoria, impressão, distribuição e atividade profissional.

A palavra “cordel” remete à prática portuguesa de expor impressos em cordões. Isso não significa que os folhetos brasileiros tenham sido sempre apresentados dessa maneira. Bancas, malas e outras formas de exposição também fizeram parte de sua circulação. Durante muito tempo, “folheto” foi uma denominação corrente entre produtores e leitores.

Também é insuficiente tratar o cordel brasileiro como simples reprodução de um modelo português. Sua formação ocorreu em um ambiente cultural diverso, com repertórios narrativos, práticas poéticas e experiências sociais que deram características próprias à produção brasileira.

Rima, métrica e histórias: como reconhecer um cordel

O cordel não se define apenas pelo tamanho do impresso, pela aparência da capa ou por um assunto nordestino. Sua construção poética é fundamental: a organização das estrofes, o ritmo dos versos e o desenvolvimento da narrativa fazem parte do trabalho do autor.

A sextilha e o ritmo dos versos

Uma forma muito frequente é a sextilha, estrofe de seis versos. Em um de seus padrões mais utilizados, o segundo, o quarto e o sexto versos rimam entre si, enquanto os demais não precisam compartilhar essa rima. O esquema costuma ser representado por XAXAXA.

Também é comum o verso de sete sílabas poéticas, chamado de redondilha maior. A contagem poética não corresponde necessariamente à divisão gramatical: considera a pronúncia, pode reunir sons vocálicos de palavras vizinhas e termina na última sílaba tônica do verso.

Há outras estruturas, como septilhas e décimas. Portanto, uma única fórmula não resume toda a produção. Ler em voz alta ajuda a perceber o ritmo, mas a musicalidade não dispensa o cuidado com a composição.

Temas que ultrapassam o sertão

Romances, aventuras, humor, religiosidade, cangaço, disputas políticas e acontecimentos do cotidiano aparecem no repertório do cordel. Há também obras sobre ciência, direitos, saúde e questões ambientais.

Essa variedade impede que a manifestação seja reduzida à seca, à paisagem rural ou a um público específico. O cordel circula entre pessoas com diferentes níveis de escolaridade e pode combinar entretenimento, comentário social e elaboração literária.

Quando um folheto aborda um acontecimento histórico, é importante distinguir documentação e interpretação. Exagero, sátira e invenção narrativa podem fazer parte da obra; seus versos não devem ser tomados automaticamente como relato factual.

Como funciona a xilogravura

A xilogravura é uma técnica de impressão em relevo. O artista trabalha uma superfície de madeira com ferramentas de corte, retirando as áreas que não deverão receber tinta. As partes preservadas em relevo formam a imagem impressa.

O processo básico envolve:

  1. Preparar a matriz: escolher e trabalhar a superfície de madeira.
  2. Definir e entalhar a imagem: abrir cortes e áreas rebaixadas.
  3. Aplicar a tinta: cobrir as partes em relevo, normalmente com um rolo.
  4. Transferir a imagem: colocar o papel em contato com a matriz e exercer pressão.

A estampa aparece invertida em relação à matriz, aspecto importante quando há letras ou elementos com direção definida. Uma mesma matriz permite produzir várias impressões, com possíveis diferenças de entintagem, pressão e papel.

O preto e branco é muito associado às capas de cordel, mas a xilogravura também pode ser colorida. Tampouco existe um único estilo: os artistas variam os cortes, a densidade das linhas, os contrastes e a organização das cenas.

A capa não determina a técnica

Nem toda capa de cordel foi feita com xilogravura. Ao longo da história editorial dos folhetos, também foram utilizados recursos tipográficos, desenhos, fotografias e outras soluções gráficas.

Uma imagem com traços grossos e alto contraste pode lembrar uma xilogravura sem ter sido entalhada em madeira. Além disso, uma gravura pode ser digitalizada e reproduzida por outro processo de impressão.

Por isso, convém distinguir a estampa impressa diretamente da matriz de uma reprodução da imagem. Ambas podem ter interesse cultural, mas apresentam materiais e processos diferentes.

Artistas e territórios de produção

J. Borges, associado a Bezerros, em Pernambuco, destacou-se tanto na literatura de cordel quanto na xilogravura. Mestre Noza é uma referência importante da produção artística de Juazeiro do Norte, no Ceará. Suas trajetórias mostram que a gravura pode dialogar com o folheto e também circular como obra autônoma.

A geografia dessas manifestações é mais ampla que o sertão. Recife teve papel relevante na edição e na distribuição de folhetos. Caruaru e Bezerros ficam no Agreste pernambucano, enquanto Juazeiro do Norte integra o Cariri cearense. São contextos urbanos e regionais distintos, que não devem ser apresentados como uma paisagem única.

Migrações, redes comerciais, bibliotecas, escolas e iniciativas culturais contribuíram para a circulação do cordel em outras partes do Brasil. Autoras e autores contemporâneos também ampliam temas e espaços de publicação.

A relação entre poesia, voz e público permite aproximar o cordel de outras tradições, sem confundi-las. A leitura sobre viola caipira, catira e folias ajuda a comparar diferentes formas de transmissão cultural ligadas à palavra e à música.

O que o reconhecimento como patrimônio protege

Em 2018, a Literatura de Cordel foi inscrita no Livro de Registro das Formas de Expressão do IPHAN. O reconhecimento considera uma prática cultural viva, sustentada por conhecimentos, modos de fazer e relações entre seus participantes.

Não se trata de tombar todos os folhetos nem de estabelecer uma forma obrigatória de escrever. O registro do patrimônio imaterial orienta o reconhecimento e a salvaguarda de manifestações culturais, com atenção à continuidade de sua prática e transmissão.

No caso do cordel, isso pode envolver documentação de acervos, formação, circulação das obras, valorização dos autores e condições para que novos participantes desenvolvam seu trabalho. O reconhecimento, por si só, não garante recursos permanentes nem resolve dificuldades de distribuição e preservação.

Também não equivale a um registro autônomo de toda a xilogravura brasileira. A técnica integra o universo do cordel, mas tem outros usos e trajetórias. Para compreender os instrumentos de proteção, vale consultar a explicação sobre tombamento, registro e Patrimônio Mundial.

Como conhecer e apreciar essas manifestações

Bibliotecas, feiras literárias, museus, centros culturais e atividades conduzidas por artistas podem oferecer contato com folhetos, matrizes e estampas. Para uma visita, é necessário confirmar no canal oficial do espaço se há exposição, mediação ou oficina disponível e quais são as condições de acesso.

Na leitura ou diante de uma obra, algumas perguntas tornam a experiência mais informativa:

  • Quem escreveu e quem ilustrou? As funções podem ser exercidas pela mesma pessoa ou por profissionais diferentes.
  • Há identificação de editora e edição? Essas informações ajudam a acompanhar a circulação do folheto.
  • Como o poema organiza suas rimas? A leitura de uma estrofe em voz alta evidencia escolhas de ritmo.
  • A imagem acompanha ou interpreta o texto? A capa pode destacar um personagem, sugerir humor ou criar uma cena que não aparece literalmente nos versos.
  • Qual foi o processo de impressão? A legenda, o catálogo ou a explicação do responsável pode esclarecer se a peça é uma estampa ou uma reprodução.

Em atividades educativas, convém apresentar cordelistas e xilogravadores como autores, não apenas como representantes anônimos de uma tradição. Reproduzir uma obra exige atenção aos créditos e aos direitos autorais; o reconhecimento como patrimônio cultural não a coloca automaticamente em domínio público.

Em resumo

Cordel é criação literária; xilogravura é uma técnica de produção de imagens. A aproximação entre ambos marcou a cultura brasileira, mas não elimina a diversidade de cada linguagem.

Para começar, o leitor pode escolher um folheto com autoria identificada, observar sua estrutura poética e investigar como a capa foi produzida. Em uma exposição ou atividade cultural, comparar texto, matriz e estampa ajuda a compreender o trabalho que sustenta essas manifestações.

Fontes e referências