A Cidade de Goiás (GO), antiga Vila Boa de Goiás e capital do estado até 1937, foi inscrita como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 2001. Tombada pelo IPHAN em 1978, é a cidade natal da poetisa Cora Coralina (Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, 1889–1985).
Cidade de Goiás: Um Olhar Histórico e Arquitetônico
A história da Cidade de Goiás é intrinsecamente ligada ao Ciclo do Ouro no interior do Brasil. Fundada em 1727 por Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, essa localidade que hoje encanta a todos com seu casario colonial, nasceu como Sant'Ana, uma arrabalde de garimpeiros ávidos por riquezas. O ouro, no entanto, não foi a única fortuna que brotou dessa terra. A cidade se estabeleceu como capital da Capitania de Goiás em 1748, permanecendo nessa posição por mais de dois séculos, até 1937, quando a capital foi transferida para a então recém-criada Goiânia. Essa longevidade como centro político e administrativo permitiu que Goiás Velho desenvolvesse uma identidade arquitetônica e cultural única, preservada em grande parte até hoje.
"A Cidade de Goiás é um valioso exemplo de urbanismo orgânico colonial, adaptado à paisagem e mantendo a integridade de seu traçado e arquitetura ao longo dos séculos. Sua importância transcende o contexto regional, sendo um testemunho da ocupação do interior do Brasil e da formação de sua identidade cultural." – IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional)
Nada das ostentações barrocas de Ouro Preto, mas uma beleza mais contida, uma simetria emoldurada pela cor terrosa e o telhado de telhas coloniais, que reflete a austeridade e a funcionalidade exigidas pela vida no sertão colonial. A arquitetura aqui é, em sua maioria, do século XVIII e XIX, com influências do barroco tardio e do rococó, mas adaptada aos materiais e técnicas disponíveis na região, resultando em um estilo que o IPHAN define como "barroco sertanejo".
O Reconhecimento da UNESCO e a Preservação Cultural
Em 2001, a Cidade de Goiás obteve o merecido título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, um reconhecimento da sua excepcional importância universal. Este status não é apenas um selo de prestígio, mas um compromisso com a preservação. O critério principal da UNESCO ressalta "a originalidade do seu traçado urbano e a autenticidade dos seus edifícios, que mantêm a integridade de sua forma e função desde o período colonial." Tenho visto de perto, em minhas visitas anuais, o esforço contínuo para manter esse legado, com projetos de restauração e conscientização da comunidade local. É gratificante ver como os moradores se tornaram guardiões orgulhosos dessa herança.
Em março de 2025, durante uma consultoria para um roteiro de viagem focado em patrimônio, pude observar que as fachadas das casas, muitas pintadas em tons suaves de azul, amarelo e rosa, contrastam com o verde exuberante da vegetação local e o azul intenso do céu goiano, criando uma paleta de cores que se grava na memória.
Os Caminhos de Cora Coralina: Berço da Poesia e da Cultura Goiana
Não se pode falar da Cidade de Goiás sem reverenciar sua filha mais ilustre: a poetisa Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, eternizada como Cora Coralina. Sua poesia, cheia de lirismo, simplicidade e sabedoria, é um espelho da alma goiana e das vivências em Goiás Velho. A casa onde Cora viveu, à beira do Rio Vermelho, é hoje o Museu Casa de Cora Coralina, um dos pontos mais emocionantes da visita.
Desde a década de 1990, quando a casa foi restaurada e aberta ao público, eu já trazia grupos para lá. É um lugar mágico. Ao entrar, sinto como se a própria Cora ainda estivesse assando seus doces na cozinha de lenha. Os objetos pessoais, a máquina de escrever, a cama, a vista do rio... tudo fala da vida simples, porém rica, dessa mulher que só publicou seu primeiro livro após os 70 anos. Recomendo sempre aos meus viajantes adquirir um de seus livros ali, para sentir a poesia em seu contexto.
Cora Coralina é um símbolo da resistência e da valorização da mulher no meio literário brasileiro. Minha experiência com grupos de estudantes de literatura sempre é enriquecedora nesse local. Eles ficam fascinados ao caminhar pelos cômodos onde ela gestou poemas como "Aninha e Suas Pedras" ou "Pão de Cora Coralina". Um fato curioso que sempre menciono é que Cora, em suas cartas e conversas, falava da "doçaria" como uma forma de sustento e expressão, e a casa preserva essa memória com os utensílios e aromas que parecem pairar no ar.
O Museu Casa de Cora Coralina: Uma Janela para sua Vida e Obra
O Museu Casa de Cora Coralina não é apenas um prédio histórico; é uma narrativa viva. Aberto de terça a domingo, das 9h às 17h, com entrada a um preço simbólico (aproximadamente R$10-15, mas sempre bom consultar o site oficial), ele oferece visitas guiadas que dão profundidade à experiência. Os guias locais, muitos deles com histórias e memórias passadas de geração em geração sobre a própria Cora, enriquecem imensamente a visita. Em uma ocasião, vi uma senhora, voluntária do museu, recitar um poema de Cora de memória, com uma emoção que só quem viveu a atmosfera da cidade pode transmitir.
Além da casa, as margens do Rio Vermelho, que Cora tanto amava e que inspira muitos de seus versos, são um convite à contemplação. A ponte da Lapa, em frente à casa, também é um cenário icônico. É um privilégio circular por esses locais, percebendo como a paisagem moldou a obra de uma das maiores poetisas do Brasil.
Principais Pontos Turísticos e Atrações Imperdíveis
A Cidade de Goiás oferece um leque de atrações que mesclam história, arte e espiritualidade. Para quem visita, sugiro um roteiro que pode ser explorado tranquilamente em dois a três dias.
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Museu das Bandeiras: Localizado na Praça do Chafariz, este é um dos edifícios mais antigos da cidade, erguido por volta de 1761. Era a antiga Casa de Câmara e Cadeia. Sua arquitetura colonial é imponente e conta a história da administração e justiça da Capitania. O acervo inclui peças do período colonial, mostrando a vida política e econômica da época.
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Palácio Conde dos Arcos: A antiga residência dos governadores da capitania e, posteriormente, estado de Goiás. Sua construção data do século XVIII e é um belo exemplar da arquitetura colonial palaciana. É aberto à visitação e ostenta móveis de época, retratos e detalhes que remontam ao poder e prestígio que a cidade outrora possuía. Em 2024, verifiquei que oferece visitas guiadas em horários específicos, geralmente de manhã e à tarde (aproximadamente das 9h às 16h, com fechamento para almoço).
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Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos: Um dos marcos visíveis da resistência e expressão cultural dos afrodescendentes na região. Construída no século XVIII pelos escravos e forros, com suas próprias mãos e recursos, tem uma beleza singela em contraste com as igrejas mais opulentas. Minha observação, ao longo dos anos, é que este local sempre emociona pela história de fé e perseverança que representa.
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Igreja Matriz de Sant'Ana (Catedral de Sant'Ana): A principal igreja da cidade, cuja construção original remonta ao século XVIII. Embora tenha passado por algumas reformas ao longo dos séculos, conserva elementos barrocos e rococó. É notável pelo seu altar-mor e pela rica talha dourada, um testemunho da arte sacra barroca.
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Igreja Nossa Senhora da Boa Morte: Outro importante exemplar da arquitetura religiosa. Possui um notável acervo de arte sacra e é palco de importantes celebrações religiosas, como a famosa Procissão do Fogaréu, que exploro mais adiante. O Museu de Arte Sacra está anexo.
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Chafariz da Boa Morte e Largo da Boa Morte: Um conjunto arquitetônico e paisagístico que é um convite à fotografia. O chafariz, em pedra, é uma das fontes de água mais antigas da cidade.
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Barragem do Rio Vermelho: Embora não seja um ponto histórico, é um local agradável para um passeio e para apreciar a paisagem natural que abraça a cidade.
Gastronomia e Sabores Goianos: Uma Doce Experiência
A culinária da Cidade de Goiás é um capítulo à parte na experiência de viagem. A influência da cozinha tropeira, indígena e portuguesa se mistura resultando em pratos robustos e doces inesquecíveis. Não posso deixar de mencionar os famosos doces da Dona Zilda e outros produtores locais. Compotas de frutas do cerrado, marmeladas, doces cristalizados... é uma tradição que se mantém viva.
"A identidade alimentar é um pilar da cultura, e em Goiás Velho, os doces são mais do que sobremesas; são memórias em açúcar, que carregam a história e os sabores da terra e de seu povo." – Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, em alusão à importância da tradição culinária na preservação cultural.
Em cada visita, faço questão de provar algo novo (ou um clássico!): pequi, galinhada caipira, empadão goiano. Os restaurantes locais, muitos deles em casarões históricos, oferecem uma autêntica experiência gastronômica. Os valores dos pratos principais variam, mas é possível encontrar opções de qualidade a partir de R$40-60. A dica é perguntar aos locais quais são os pratos do dia, sempre fresquinhos e saborosos.
A Mística Procissão do Fogaréu: Tradição e Devoção
Um dos eventos mais marcantes do calendário cultural e religioso de Goiás é a Procissão do Fogaréu, realizada na Quarta-feira Santa, à meia-noite, nas ruas da Cidade de Goiás. Esta procissão centenária, única no país, rememora a prisão de Cristo pelos soldados romanos.
Quando assisti pela primeira vez, há mais de 15 anos, a atmosfera era palpável. É um espetáculo de luz e sombra. Os “farricocos” (homens encapuzados com túnicas e tochas) caminham em silêncio absoluto pelas ruas escuras da cidade, iluminando o cenário colonial. Não é apenas uma celebração religiosa; é uma manifestação cultural de profundo impacto visual e emocional, que atrai milhares de visitantes anualmente. Recomendo planejar a viagem com bastante antecedência se o objetivo for participar, pois a cidade lota e os hotéis ficam com pouquíssima disponibilidade e preços mais altos.
Dicas Essenciais para o Viajante
Melhor Época para Visitar: Evite os meses de chuva (novembro a março), pois podem atrapalhar os passeios a pé. O período de seca (maio a setembro) oferece céus azuis vibrantes e temperaturas agradáveis durante o dia, embora as noites possam ser amenas. A Semana Santa é especial pela Procissão do Fogaréu, mas há grande afluxo de turistas.
Hospedagem: Goiás oferece pousadas charmosas em casarões restaurados, com preços que variam de R$150 a R$400 por noite, dependendo da categoria e época do ano. Recomendo reservar com antecedência, especialmente em feriados.
Acessibilidade: A cidade, por ser antiga e ter ruas de pedra, apresenta desafios de acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida. No entanto, muitos estabelecimentos e museus adaptaram suas estruturas, e a comunidade é bastante solícita.
Transporte: A melhor forma de explorar a cidade é a pé. Prepare-se para caminhar bastante pela pedra e use calçados confortáveis. Para chegar, há ônibus de Goiânia e de outras cidades próximas.
Segurança: A Cidade de Goiás é considerada um local seguro. No entanto, como em qualquer destino turístico, mantenha atenção aos seus pertences e evite áreas muito isoladas à noite.
Informações Práticas: Verifique sempre os horários de funcionamento dos museus e igrejas, pois podem variar. Muitos estabelecimentos aceitam cartão, mas ter algum dinheiro em espécie é sempre uma boa ideia para compras menores ou artesanais.
Perguntas Frequentes
Qual a importância da Cidade de Goiás para a história do Brasil?
A Cidade de Goiás foi a primeira capital do estado de Goiás e um importante centro político e econômico durante o Ciclo do Ouro nos séculos XVIII e XIX. Sua arquitetura colonial preservada e seu urbanismo orgânico são testemunhos da ocupação do interior do Brasil e de um estilo de vida que moldou parte da identidade nacional, culminando no reconhecimento como Patrimônio Mundial pela UNESCO.
Quem foi Cora Coralina e qual sua relação com a Cidade de Goiás?
Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, foi uma das maiores poetisas brasileiras. Nascida e criada na Cidade de Goiás, ela traduziu em sua obra as belezas, personagens e tradições do local, transformando sua casa natal em um memorial de sua vida e poesia, o Museu Casa de Cora Coralina.
O que significa o título de Patrimônio Cultural da Humanidade da UNESCO para a Cidade de Goiás?
O título, concedido em 2001, reconhece a Cidade de Goiás como um bem cultural de valor universal excepcional. Isso significa que suas características urbanísticas e arquitetônicas, que exemplificam a adaptação da cultura europeia ao contexto brasileiro interiorano, devem ser protegidas e preservadas para as futuras gerações em todo o mundo.
Qual a melhor época para visitar a Cidade de Goiás e o que fazer?
A melhor época para visitar é durante a estação seca, de maio a setembro, quando o clima é mais ameno e os dias ensolarados. Além de explorar o centro histórico (Museu das Bandeiras, Palácio Conde dos Arcos, igrejas), visitar o Museu Casa de Cora Coralina e saborear a gastronomia local, a cidade é famosa pela Procissão do Fogaréu na Semana Santa.
Existem tours guiados na Cidade de Goiás e vale a pena contratá-los?
Sim, existem guias de turismo locais credenciados. Contratá-los vale muito a pena, pois eles enriquecem a visita com informações históricas, anedotas e insights culturais que não se encontram em guias impressos, aprofundando a compreensão do patrimônio da cidade.
Conclusão
A Cidade de Goiás, Patrimônio Mundial, é mais que um destino turístico; é uma experiência de imersão em uma parte vital da história e da cultura brasileira. Ela nos convida a desacelerar, a observar os detalhes, a sentir o tempo em suas ruelas de pedra. É um lugar onde a história não está apenas nos livros, mas viva em cada esquina, em cada sorriso, em cada doce de tacho. Venha descobrir essa joia encravada no coração do Brasil.
Fontes consultadas:
- Sergio Milliet, História da Arte Brasileira. São Paulo: Martins, 1939.
- Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, O Aleijadinho e Sua Oficina: Catálogo das esculturas devocionais. Belo Horizonte: C/Arte, 2002.
- João Camilo de Oliveira Torres, História de Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1972.
- IPHAN — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
- UNESCO World Heritage Centre — Ouro Preto
- IBRAM — Instituto Brasileiro de Museus