História

Igarassu (PE): a Igreja dos Santos Cosme e Damião e a colonização de Pernambuco

Entenda a importância de Igarassu, a história da Igreja dos Santos Cosme e Damião e o que observar no patrimônio colonial pernambucano.

Por Redação MarcioPoncioPublicado em Revisado em 7 min de leitura
Centro histórico de Igarassu (PE)
Centro histórico de Igarassu (PE). Foto: Elvis Boaventura · CC BY 3.0, via Wikimedia Commons

Igarassu, na Região Metropolitana do Recife, é um dos núcleos mais antigos da colonização portuguesa em Pernambuco. Seu principal marco é a Igreja dos Santos Cosme e Damião, cuja origem remonta a 1535 e que figura entre os templos católicos mais antigos ainda existentes no Brasil. A matriz, o Convento de Santo Antônio e o conjunto urbano ajudam a compreender a ocupação colonial, a expansão da economia açucareira e o papel das instituições religiosas na organização da sociedade.

Igarassu antes e depois da chegada portuguesa

A história do território não começou com a fundação da povoação colonial. Antes da chegada dos portugueses, a região era habitada por povos indígenas, que utilizavam seus rios, áreas de mata e ambientes costeiros. O próprio nome Igarassu tem origem tupi e costuma ser traduzido como “canoa grande”.

A chegada de Duarte Coelho a Pernambuco, em 1535, integra o contexto das capitanias hereditárias: a Coroa portuguesa concedia a donatários direitos e responsabilidades sobre extensas faixas de território. Isso não significava encontrar terras desocupadas. A implantação de povoações e atividades econômicas envolveu disputas, alianças e violência contra as populações que já viviam ali.

Igarassu se formou nesse processo. A proximidade de cursos d’água e do litoral favorecia a circulação de pessoas e mercadorias, enquanto a expansão dos engenhos transformava a ocupação das terras ao redor.

A produção de açúcar dependia de terras, instalações, transporte e trabalho. Sua riqueza esteve profundamente vinculada à escravização de indígenas e, de modo crescente, de africanos. Por isso, igrejas e edifícios coloniais não devem ser interpretados apenas como realizações de donatários e ordens religiosas: também pertencem a uma sociedade estruturada pela coerção e pela desigualdade.

A leitura sobre os engenhos de açúcar de Pernambuco complementa esse contexto ao relacionar arquitetura, produção e trabalho escravizado.

A Igreja dos Santos Cosme e Damião: o que sua antiguidade significa

A origem da Igreja dos Santos Cosme e Damião é associada a 1535, data que também ocupa lugar central na memória da formação de Igarassu. A tradição local relaciona a dedicação aos santos a episódios de confronto durante a ocupação portuguesa.

É importante, porém, separar tradição religiosa de comprovação histórica. Narrativas de proteção dos santos e agradecimento pela vitória expressam a memória dos colonizadores e a devoção construída ao longo do tempo. Não comprovam, por si, todos os detalhes de uma batalha nem autorizam interpretar a conquista como uma reconciliação entre portugueses e indígenas.

Foi a primeira igreja do Brasil?

A formulação exige cuidado. A matriz de Igarassu é frequentemente apresentada como a igreja mais antiga ainda de pé no país. Isso não equivale a afirmar que foi o primeiro espaço de culto católico construído no território brasileiro.

Capelas e outras estruturas religiosas existiram nos primeiros estabelecimentos portugueses, mas nem todas sobreviveram. Além disso, a data de origem de uma igreja não significa que toda a construção hoje visível pertença ao mesmo momento.

No caso de Igarassu, o templo passou por alterações ao longo dos séculos. Sua importância está na antiguidade de sua fundação, na permanência do edifício religioso e em sua relação com o desenvolvimento da povoação — não na ideia de uma construção de 1535 inteiramente intacta.

O que observar na arquitetura

A leitura pode começar pelo exterior: a composição da fachada, a torre sineira, os acessos e a posição da igreja no espaço urbano. A relação entre templo, largo e edificações próximas ajuda a perceber como a vida religiosa se articulava à organização da vila.

No interior, a atenção deve se voltar aos elementos efetivamente acessíveis e identificados pela instituição. Imagens, altares e acabamentos podem pertencer a épocas diferentes. Não é adequado atribuir todo o conjunto a um único estilo ou supor que qualquer peça seja contemporânea da fundação.

Essa distinção também vale para restaurações. Uma aparência considerada “antiga” pode resultar de intervenções posteriores. O artigo sobre como se restaura um monumento explica por que conhecer materiais, documentos e etapas construtivas é essencial antes de intervir em um edifício histórico.

O Convento de Santo Antônio e a presença franciscana

Fundado em 1588, o Convento de Santo Antônio de Igarassu é outro ponto central do patrimônio local. Sua história mostra que a implantação religiosa não se limitou à matriz: as ordens religiosas criaram espaços de culto, formação e vida comunitária, com influência duradoura sobre as povoações.

A data de fundação do convento também não deve ser confundida com a idade de todos os seus ambientes. Construções conventuais foram ampliadas e transformadas conforme recursos, necessidades e concepções artísticas de diferentes períodos.

O conjunto reúne arquitetura religiosa e um importante acervo de pintura colonial, associado à sua pinacoteca. A visita, quando disponível, permite ampliar o olhar para além das fachadas e observar como imagens religiosas participavam da devoção e da transmissão de narrativas.

Não cabe pressupor que um convento franciscano seja necessariamente desprovido de ornamentação. A identidade de uma ordem não determina, sozinha, a aparência de todos os seus edifícios. Recursos disponíveis, doações, oficinas e reformas também influenciaram os espaços.

Para organizar a visita, é necessário confirmar quais dependências estão abertas. O acesso ao convento, à igreja e à pinacoteca pode seguir condições diferentes.

O centro histórico como conjunto

O patrimônio de Igarassu não se resume a dois monumentos isolados. A implantação das igrejas, os largos, os alinhamentos das construções e as relações de escala entre os edifícios ajudam a compreender a formação do núcleo urbano.

Uma caminhada atenta pode ser orientada por três perguntas:

  • Onde estão os edifícios religiosos? Sua posição permite perceber relações entre culto, circulação e ocupação do terreno.
  • Como as construções se relacionam com a rua? Portas, janelas, limites dos lotes e continuidade das fachadas revelam formas de uso do espaço.
  • Quais transformações são perceptíveis? Reformas e adaptações mostram que o centro histórico continuou sendo utilizado depois do período colonial.

Nem toda edificação de aparência antiga pertence ao século XVI. Também não se deve tratar o centro como um cenário congelado: moradia, serviços, circulação e práticas religiosas fazem parte de sua existência atual.

Igarassu possui bens e conjunto urbano protegidos em âmbito federal. O IPHAN apresenta os instrumentos de proteção do patrimônio material, que orientam a preservação de edifícios e conjuntos de interesse cultural.

Tombamento federal, entretanto, não é sinônimo de inscrição na UNESCO. Em Pernambuco, o Centro Histórico de Olinda possui esse reconhecimento internacional. A distinção entre essas categorias está detalhada no guia sobre tombamento, registro e Patrimônio Mundial.

Como visitar com foco na história

Igarassu pode integrar uma programação cultural a partir de Recife ou Olinda, mas o deslocamento deve ser planejado conforme o ponto de partida e as condições de trânsito. Convém reservar tempo para caminhar e consultar as informações disponíveis, em vez de limitar a passagem a fotografias das fachadas.

Uma sequência útil é começar pelo entorno da Igreja dos Santos Cosme e Damião, conhecer seu interior quando houver acesso e depois seguir para o Convento de Santo Antônio. O percurso pelo núcleo histórico ajuda a conectar os dois conjuntos.

Antes da saída:

  • Confirme a abertura dos monumentos e da pinacoteca nos canais oficiais das instituições responsáveis ou da gestão municipal.
  • Verifique possíveis restrições por celebrações religiosas, manutenção ou restauração.
  • Consulte as condições de acessibilidade, especialmente se houver necessidade de evitar degraus, desníveis ou pavimentos irregulares.
  • Planeje proteção contra o sol, hidratação e alternativas em caso de chuva.

Durante a visita, não toque em pinturas, imagens, talhas ou superfícies antigas. Respeite áreas interditadas e confirme as regras para fotografias. A matriz é um espaço religioso, e a visitação deve se ajustar às atividades de culto. Outras orientações estão no guia sobre como visitar igrejas históricas.

A devoção aos Santos Cosme e Damião permanece importante na vida local, especialmente nas celebrações de setembro. Quem deseja acompanhar atividades religiosas deve consultar a programação vigente, sem presumir que datas, percursos e condições de acesso se repitam todos os anos.

Em resumo

Igarassu ajuda a compreender o início da colonização portuguesa em Pernambuco, suas bases econômicas e seus conflitos. A matriz e o convento são pontos de partida para essa leitura, mas ganham sentido quando relacionados ao território, à população e às transformações urbanas.

Para preparar a visita, confirme o acesso aos interiores e à pinacoteca, observe o conjunto além dos monumentos e diferencie datas de fundação das etapas de construção. Essa abordagem permite conhecer o patrimônio sem reduzir sua história a uma disputa pelo título de “mais antigo”.

Fontes e referências