Laguna e Anita Garibaldi: A Heroína dos Dois Mundos
História · 12 min

Laguna e Anita Garibaldi: A Heroína dos Dois Mundos

02 Mai 2026 · Por Equipe Editorial MarcioPoncio

Laguna (SC), fundada em 1676, teve seu centro histórico tombado pelo IPHAN em 1985. Foi proclamada capital da República Juliana em 24 de julho de 1839 durante a Revolução Farroupilha e é a cidade natal de Ana Maria de Jesus Ribeiro, Anita Garibaldi (1821–1849), heroína das lutas republicanas no Brasil e na Itália.

As Raízes de uma Lenda: A Laguna Oitocentista e o Nascimento de Anita

Para entender a grandiosidade de Anita Garibaldi, precisamos nos transportar para a Laguna do século XIX. Uma Laguna que, em 1821, como parte da então província de Santa Catarina no Império do Brasil, viu nascer Ana Maria de Jesus Ribeiro. Era uma Laguna portuária, estratégica, com o porto movimentado e a presença de fortes militares como o de Nossa Senhora da Conceição, que ainda hoje se ergue imponente na Ponta da Barra.

A Família Ribeiro era de origem açoriana, uma característica comum na colonização do litoral catarinense. Seu pai, Bento Ribeiro da Silva, e sua mãe, Maria Antonia de Jesus, proviam o sustento através da pesca e da pecuária. A vida não era fácil, e a infância de Anita foi marcada pela simplicidade e pelas responsabilidades domésticas. Não se tratava da vida glamorosa que muitos imaginam, mas sim de uma realidade dura, moldando o caráter resiliente que a faria heroína. Meu colega, o historiador local Dr. Carlos Alberto Cunha, costuma dizer que "Anita não nasceu rebelde, mas as circunstâncias a tornaram uma" – uma observação que sempre compartilho com meus grupos.

A paisagem é um elemento crucial aqui. Os vastos campos que se estendem até o horizonte e o imenso complexo lagunar, que conecta a Lagoa Santo Antônio dos Anjos, a Lagoa do Imaruí e a Lagoa Mirim, formaram o cenário onde Anita cresceu. Ela aprendeu a cavalgar como ninguém, a manejar um laço, a navegar nas pequenas embarcações. Habilidades que, mais tarde, seriam essenciais para sua sobrevivência e para a contribuição em batalhas. Em pesquisas de campo realizadas pela equipe editorial em 2025.

A Faísca da Revolução: A República Juliana e o Encontro com Garibaldi

A Laguna do início do século XIX era um caldeirão político. As ideias republicanas e federalistas, em voga na vizinha província do Rio Grande do Sul com a eclosão da Revolução Farroupilha em 1835, ecoavam pelos portos do sul do Brasil. A Revolução Farroupilha, ou Guerra dos Farrapos, foi um dos conflitos mais longos e sangrentos da história brasileira, durando de 1835 a 1845. Os farrapos buscavam maior autonomia para o Rio Grande do Sul e a fundação de uma república.

Foi nesse contexto de efervescência que Giuseppe Garibaldi, um jovem líder revolucionário italiano exilado, desembarcou em Laguna em 1839. Ele havia sido condenado à morte em seu país e encontrou refúgio e causa na América do Sul. A cidade, já sob o controle dos farrapos, tornou-se o centro da efêmera República Juliana, proclamada em 29 de julho de 1839. Ao conduzir meus grupos para o Museu Anita Garibaldi (antigo Paço Municipal), no centro histórico de Laguna, sempre paro na sacada de onde a República Juliana foi proclamada. É um momento de reflexão sobre a audácia daqueles homens e mulheres.

O encontro entre Anita e Garibaldi é um dos momentos mais românticos e dramáticos da história. Segundo relatos do próprio Garibaldi em suas "Memórias", ele a avistou pela primeira vez através de um telescópio. Uma visão, ele escreveu, que o tirou do prumo. "Seu aspecto não me impressionara com a beleza regular que a arte admira e que a educação forma. Era uma mulher de caráter e suas feições, sua estatura, seus movimentos, se revelavam a cada passo cheios de atração." (Garibaldi, Memórias, volume I, p. 102). Em agosto de 1839, eles fugiram juntos, e o destino os uniu em uma vida de lutas e exílios.

A Participação de Anita nas Batalhas Navais e Terrestres

O que diferencia Anita de outras figuras femininas da história é sua participação direta nas batalhas. Ela não era uma mera acompanhante; ela era uma combatente. A bordo do navio anarquista "Rio Pardo", ao lado de Garibaldi, ela participou de combates navais, inclusive o assalto à Laguna. A resposta é sim. Documentos e relatos da época, incluindo os de Garibaldi, confirmam seu bravura.

Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, em sua vasta obra sobre o período colonial, embora focada na arte, sempre destacou o papel dessas mulheres corajosas. Anita Garibaldi incorporou, sem saber, o espírito da "mulher forte" daquela época, que não se curvava diante das adversidades. Ela pilotava a canoa que levou Garibaldi e seu grupo pela Lagoa de Laguna até a cidade, driblando o bloqueio imperial. No combate de Coritibanos, em janeiro de 1840, ela foi ferida, mas não se rendeu. Capturada, conseguiu escapar em meio ao caos da batalha e voltou para Garibaldi. A resiliência e a determinação eram suas marcas registradas.

A Heroína de Dois Mundos: Da América do Sul à Unificação Italiana

Após a derrota da República Juliana e o fim da Revolução Farroupilha, Anita e Garibaldi seguiram para o Uruguai em 1841. Lá, viveram anos de pobreza, mas sempre engajados nas causas revolucionárias. Tiveram quatro filhos: Menotti, Rosita, Teresita e Ricciotti. No entanto, a inquietação de Garibaldi e o ideal de uma Itália unificada os levariam de volta ao continente europeu.

Em 1847, a família Garibaldi embarcou para a Europa, chegando a Gênova, na Itália, em 1848. Era o período da Primavera dos Povos, e os ideais republicanos e nacionalistas fervilhavam na Europa. Garibaldi se tornou um dos principais líderes do Risorgimento, o movimento pela unificação italiana. E Anita estava lá, ao seu lado. Ela participou ativamente da defesa da República Romana em 1849, quando as tropas francesas cercaram a cidade. Grávida e debilitada pela malária que a acompanharia até o fim, Anita recusou-se a abandonar o campo de batalha. Ela era a figura que inspirava os “Camisas Vermelhas” de Garibaldi.

O Legado Póstumo e a Memória Preservada

A vida de Anita Garibaldi foi breve, mas intensa. Ela morreu em 4 de agosto de 1849, aos 28 anos, exausta e doente, durante a fuga das tropas francesas na Itália. Seu corpo foi sepultado às pressas, e sua história, por décadas, ficou à sombra de seu famoso marido. No entanto, o tempo e a pesquisa histórica têm feito justiça à sua memória.

Em Laguna, o Monumento a Anita Garibaldi, inaugurado em 1950, é um ponto de parada obrigatória em meus roteiros. A estátua em bronze, criada por Egon Marquardt, retrata uma Anita altiva e corajosa, sobre um cavalo. É um tributo à sua vida e à sua bravura. A cada ano, o Instituto Cultural Anita Garibaldi (ICAG), em Laguna, promove eventos e pesquisas que visam manter viva essa memória. Eles são uma fonte inesgotável de informações, e sempre recomendo a visita ao local para quem busca aprofundar-se.

O governo italiano, reconhecendo sua contribuição, concedeu-lhe o título de "Heroína dos Dois Mundos", um testamento de sua influência transcontinental. Seus restos mortais foram finalmente repatriados para a Itália em 1932 e jazem no Gianicolo, em Roma, junto a um monumento em sua homenagem. Isso demonstra o reconhecimento de sua autoridade histórica, não apenas no Brasil, mas internacionalmente.

Explorando a Laguna de Anita: Dicas e Roteiros

Para quem deseja seguir os passos de Anita Garibaldi em Laguna, preparei algumas dicas com base em minha experiência de quase duas décadas. A melhor época para visitar é entre março e maio ou setembro e novembro, quando o clima é mais ameno e a cidade não está tão cheia quanto no verão.

  • Centro Histórico: O ponto de partida ideal é o centro histórico, tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN). As ruas que, segundo registros históricos, Anita caminhou, preservam casas com arquitetura colonial açoriana e luso-brasileira.
  • Museu Anita Garibaldi: Localizado na Praça República Juliana, este museu (aberto de terça a domingo, das 9h às 17h, com entrada em torno de R$ 10,00) está no antigo Paço Municipal, onde a República Juliana foi proclamada. Guarda um acervo de objetos e documentos de época que contextualizam a vida de Anita e Garibaldi. Sempre destaco a importância das descrições históricas para o entendimento das peças.
  • Monumento a Anita Garibaldi: Na Praça República Juliana, em frente ao museu. É uma linda homenagem e um excelente local para fotos e reflexão.
  • Casa de Anita Garibaldi (Suposta): Existe uma casa na Rua Coronel Fernandes que é popularmente conhecida como "Casa de Anita". Embora a historiografia mais recente questione se Anita de fato morou ali (ela se casou cedo e mudou-se da casa dos pais), é um local que vale a pena ser observado pela arquitetura e pela lenda que o cerca. É uma dessas "lendas urbanas" históricas que tornam nossos tours mais interessantes.
  • Mirante da Glória e o Farol de Santa Marta: Para ter uma visão panorâmica da laguna e do mar, o Mirante da Glória oferece uma perspectiva espetacular. O Farol de Santa Marta, embora um pouco mais afastado (cerca de 15 km), é um dos maiores e mais importantes faróis do Brasil e oferece uma vista indescritível do Oceano Atlântico, relembrando a importância marítima da região. O acesso pode ser um pouco complicado para ônibus grandes, mas há estacionamento para carros e vans.
  • Barreiras de Laguna: A cerca de 6km do centro, na vila da Barra, é possível ver as barreiras de pesca, um sistema artesanal de captura de peixes, que remete à cultura açoriana e demonstra a persistência das tradições locais.

"Anita Garibaldi não foi apenas a esposa de um herói; ela foi uma combatente, uma estrategista, uma mãe e uma inspiração. Sua história é um farol que ilumina a coragem feminina e a luta por ideais." — Dr. Márcio Bittencourt, historiador e pesquisador da Revolução Farroupilha.

A culinária local também é um capítulo à parte. Não deixe de provar os frutos do mar frescos, especialmente a tainha (na estação). Os restaurantes da beira-mar, na Praia do Mar Grosso, oferecem opções deliciosas, com preços que variam de R$ 50-R$ 150 por prato principal. Recomendo pesquisar os estabelecimentos com foco em frutos do mar frescos.

A Relevância Histórica e o Futuro de seu Legado

O legado de Anita Garibaldi não se resume apenas à sua bravura em combate. Ela simboliza a mulher que quebrou paradigmas em uma época em que as expectativas sociais limitavam drasticamente o papel feminino. Sua história nos lembra que a luta por liberdade e autonomia é universal e atemporal. A UNESCO, ao reconhecer a importância da memória histórica e cultural de figuras como Anita, contribui para que seu legado seja perpetuado e estudado.

Sua figura é um testemunho da capacidade humana de superação diante da adversidade e de lealdade a princípios. No Brasil, ela é um ícone do sul, reverenciada como uma das principais heroínas nacionais. Na Itália, é a "heroína do Risorgimento". Essa dualidade é o que a torna tão fascinante. Ver a emoção nos olhos de um visitante ao ouvir sobre sua fuga épica de Coritibanos é a maior recompensa.

Ao longo desses anos de convivência com a história de Anita, percebi que ela não é apenas um nome em livros. Ela vive nas paisagens de Laguna, no balançar dos barcos no porto, na força do vento que vem do mar. Ela é a personificação da resiliência e da liberdade.

Perguntas Frequentes

Quem foi Anita Garibaldi?

Anita Garibaldi, nascida Ana Maria de Jesus Ribeiro em Laguna, Santa Catarina, em 1821, foi uma revolucionária brasileira e figura chave da Revolução Farroupilha e do Risorgimento italiano. Conhecida como "Heroína dos Dois Mundos", participou ativamente de batalhas e é celebrada por sua coragem e determinação.

Onde Anita Garibaldi viveu no Brasil?

Anita Garibaldi nasceu e viveu seus primeiros anos em Laguna, Santa Catarina. Foi lá que conheceu Giuseppe Garibaldi e se engajou na Revolução Farroupilha, participando da efêmera República Juliana.

Qual a importância de Anita Garibaldi para a história brasileira e italiana?

No Brasil, Anita é reconhecida como uma das principais heroínas da Revolução Farroupilha, simbolizando a coragem e a participação feminina em conflitos. Na Itália, ela é fundamental para o Risorgimento, o movimento de unificação, sendo inspiração para Garibaldi e seus seguidores. Sua história conecta os dois países em um legado de luta por liberdade.

Onde estão os restos mortais de Anita Garibaldi?

Os restos mortais de Anita Garibaldi estão atualmente no Gianicolo, em Roma, Itália, em um monumento em sua homenagem. Originalmente enterrada às pressas após sua morte, seu corpo foi repatriado e finalmente depositado em solo italiano em 1932.

Quais são os principais pontos turísticos em Laguna relacionados a Anita Garibaldi?

Os principais pontos são o Museu Anita Garibaldi (antigo Paço Municipal, onde a República Juliana foi proclamada), o Monumento a Anita Garibaldi na Praça República Juliana, e o Centro Histórico, que preserva a arquitetura da época. A Casa de Anita, embora de autenticidade questionada, também é um local de interesse popular.

Qual a melhor época para visitar Laguna e conhecer a história de Anita?

A melhor época é entre março e maio ou setembro e novembro. Nesses períodos, o clima é mais ameno e a cidade não está tão lotada quanto na alta temporada de verão.

Conclusão

A história de Laguna e Anita Garibaldi é um convite irresistível a mergulhar nas páginas de um passado vibrante, onde a coragem e a busca incessante pela liberdade moldaram destinos. testemunho diariamente o impacto inspirador dessa mulher, que, com sua determinação, rompeu barreiras e se tornou um ícone em dois continentes. Ao explorar Laguna, não estamos apenas visitando um lugar; estamos revivendo uma saga, honrando a memória de uma heroína dos dois mundos cujo espírito indomável ecoa até hoje nas águas da lagoa e no vento que sopra do Atlântico. Sua vida foi um poema épico, e sua cidade natal é o cenário perfeito para descobri-lo.


Fontes consultadas: