Mariana (MG) foi a primeira vila, a primeira cidade e a primeira capital de Minas Gerais (1745–1823). Tombada pelo IPHAN em 1938, é sede do Arquidiocese desde 1745 e abriga a Sé de Nossa Senhora da Assunção (1709), que conserva o órgão alemão Arp Schnitger de 1701 — único do gênero na América Latina.
Minha experiência de quase duas décadas guiando viajantes me ensinou que, para realmente capturar a essência de Mariana, não basta apenas olhar; é preciso sentir a história que ecoa em suas ladeiras de pedra e resplandece em sua arquitetura barroca. A riqueza de seu acervo sacro é um testemunho eloquente da fé e da opulência do período do ouro, um convite irrecusável a mergulhar nas profundezas do Brasil colonial.
O Berço da Capitania de Minas: A Fundação e o Apogeu de Mariana
A fundação de Mariana está intrinsecamente ligada à descoberta do ouro. No final do século XVII, as notícias do metal precioso nas terras do interior do Brasil Colônia atraíram milhares de portugueses e escravizados vindos da África, em uma das maiores migrações da história. O Arraial de Nossa Senhora do Carmo surgiu como um dos primeiros e mais importantes centros urbanos dessa corrida do ouro. Já em 1711, a Coroa Portuguesa reconheceu sua importância, elevando-o à categoria de vila. A data de 23 de abril de 1745 é um marco crucial: a vila foi elevada a cidade e recebeu o nome de Mariana, em homenagem à Rainha D. Maria Ana da Áustria, esposa de D. João V. Na mesma ocasião, tornou-se a primeira capital da Capitania de Minas Gerais, um status que a catapultou para o centro do poder político e econômico da região.
"A cidade de Mariana, elevada à condição de capital por D. João V em 1745, não era apenas um centro administrativo; era um símbolo do poder e da fé. Suas igrejas, repletas de ouro e arte, são um espelho da sociedade que a construiu." – Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, em "O Aleijadinho e Sua Oficina".
observei que muitos se surpreendem ao saber que Mariana antecedeu Ouro Preto como capital. Essa informação, muitas vezes obscurecida pela posterior ascensão de Vila Rica, é fundamental para compreender a hierarquia e o desenvolvimento inicial da região. O papel de Mariana como centro irradiador de fé, arte e poder é inegável, e o legado desse período pode ser visto em cada detalhe de suas construções. A riqueza extraída das minas financiou a construção de templos magníficos, que hoje são o alicerce do seu acervo sacro.
A Estrutura Urbana Pioneira: Traçado de José Fernandes Pinto Alpoim
Um aspecto que sempre destaco, especialmente para arquitetos e urbanistas nos meus grupos, é o plano urbanístico de Mariana. Diferente de muitas cidades coloniais que cresceram organicamente, Mariana teve seu traçado urbano planejado. Em 1745, o brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim foi encarregado de projetar a cidade, dando-lhe ruas largas e retas, algo incomum para a época e que a distinguia das intrincadas vielas de outras cidades mineiras. Gosto de chamar a atenção para essa singularidade durante as caminhadas, explicando como a Praça Minas Gerais, com suas duas igrejas (Nossa Senhora do Carmo e São Francisco de Assis), a Casa de Câmara e Cadeia e o Pelourinho, forma um conjunto arquitetônico harmonioso e de rara beleza, um verdadeiro cartão-postal do barroco mineiro. É um privilégio ver a reação dos visitantes quando compreendem a grandiosidade desse planejamento e a intenção de criar uma capital à altura de seu nome.
O Acervo Sacro de Mariana: Um Tesouro Barroco à Céu Aberto
O coração de Mariana, sem dúvida, reside em suas igrejas. Elas não são apenas edifícios religiosos; são museus vivos, galerias de arte que guardam o esplendor do período colonial e a profunda fé de seus habitantes. Quando caminho com os grupos pelas ruas de Mariana, os convido a observar não apenas a beleza superficial, mas a história encapsulada em cada detalhe da talha dourada, em cada pintura e em cada imagem.
Catedral Basílica Nossa Senhora da Assunção: O Pontapé na Jornada Sacra
Nossa primeira parada é, invariavelmente, a Catedral Basílica Nossa Senhora da Assunção, a grande Paróquia Matriz elevada à condição de Catedral em 1745. É aqui que começamos a sentir a dimensão da autoridade eclesiástica na colônia. Construída entre 1712 e 1718, com ampliações até meados do século XVIII, ela impressiona pela imponência de sua fachada, originalmente de taipa e depois substituída por alvenaria de pedra.
No interior, o que mais me emociona – e vejo que acontece o mesmo com os turistas – é o órgão alemão Arp Schnitger, fabricado em Hamburgo em 1701 e trazido para Mariana em 1747. É um dos poucos órgãos coloniais ainda em funcionamento no Brasil e, segundo especialistas do IPHAN, um dos mais importantes do mundo. Além disso, a capela-mor da Catedral é um espetáculo à parte, com seus altares em talha dourada e pinturas de Manoel da Costa Ataíde, que começou a desenvolver seu talento ali, antes de se consagrar em Ouro Preto.
Igreja de Nossa Senhora do Carmo: A Pura Expressão do Barroco
Descendo algumas ladeiras da Catedral, chegamos à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, um exemplar magnífico do barroco e rococó mineiro. Iniciada em 1759, a igreja foi concluída em 1784 e possui uma fachada elegante e interiores que transbordam riqueza. A talha dourada dos altares laterais e do altar-mor é de tirar o fôlego.
A arte de Aleijadinho e Mestre Ataíde é notável aqui. Enquanto o projeto arquitetônico é atribuído a José Pereira dos Santos, a imagineria e a decoração carregam a marca desses mestres. A Capela do Santíssimo Sacramento, em particular, apresenta um rococó mais tardio, com elementos delicados e harmoniosos. É um lugar onde o silêncio da arte fala mais alto do que qualquer explicação. Infelizmente, por questões de conservação, nem sempre todas as áreas são acessíveis, mas mesmo do pórtico, a visão já é grandiosa.
Igreja de São Francisco de Assis: A Simplicidade na Perfeição Barroca
Ao lado da Igreja do Carmo, formando o conjunto da Praça Minas Gerais, está a Igreja de São Francisco de Assis. Concluída em 1794, é um exemplo fascinante de como o barroco mineiro incorporou as limitações materiais com inteligência e criatividade. Diferentemente da ostentação de ouro de outras igrejas, a São Francisco de Assis utiliza uma mistura de argamassa e pedra-sabão, com pinturas que simulam a talha dourada.
Essa "pobreza" aparente é, na verdade, um recurso artístico brilhante. Sempre peço que os visitantes se aproximem das colunas e capitéis para perceber a textura, a simulação perfeita do que seria o ouro. É um testemunho da capacidade dos artistas locais de adaptar-se e criar arte de grande valor estético com o que tinham à disposição. O retábulo-mor foi trabalhado, segundo a historiadora Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, por Francisco Vieira Servas, enquanto as laterais foram projetadas por Aleijadinho. A pintura do forro do teto, com cenas da vida de São Francisco, é atribuída a Manuel da Costa Ataíde, embora haja controvérsias sobre a autoria total, o que é comum na pesquisa do período em função da organização das oficinas. Na minha opinião, o conjunto é de uma beleza que transcende o material, focando na expressividade e na devoção.
Outras Joias Sacras de Mariana
Além dessas três grandes igrejas, Mariana abriga outras capelas e igrejas que completam o seu acervo sacro.
- Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos: Um pouco mais afastada do centro, esta igreja, com sua fachada mais singela, representa a devoção da população escravizada. Sua simplicidade externa contrasta com a riqueza de suas irmandades. A Igreja do Rosário é um importante marco da participação da população africana e afrodescendente na construção do patrimônio religioso e cultural de Minas.
- Capela de Santo Antônio: Pequena, mas charmosa, revela detalhes interessantes do período.
- Museu Arquidiocesano de Arte Sacra: Situado no antigo Palácio dos Bispos, ao lado da Catedral, este museu é um complemento essencial para a compreensão do acervo. Lá, encontramos peças de ourivesaria, paramentos, imagens e documentos que contextualizam a riqueza espiritual e material da diocese. É um acervo importantíssimo para o estudo do barroco e rococó, com peças que datam do século XVIII e XIX. Em minha última visita técnica, em fevereiro de 2024, vi que algumas peças estavam em restauração, evidenciando o cuidado contínuo com esse patrimônio.
O Patrimônio Cultural e a Gestão da Memória
Mariana não é apenas um conjunto de igrejas; é uma cidade viva que celebra e preserva sua memória. As instituições como o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e a UNESCO têm um papel crucial nessa preservação. O conjunto arquitetônico e urbanístico de Mariana é tombado pelo IPHAN desde a década de 1940, e há esforços contínuos para sua eventual inclusão na lista de Patrimônios Mundiais da UNESCO, o que reforçaria ainda mais a sua importância global.
A gestão do patrimônio em Mariana enfrenta desafios, como em todas as cidades históricas. A manutenção das estruturas centenárias, a conciliação do turismo com a vida local e a conscientização da comunidade sobre seu papel na preservação são pontos cruciais. É um trabalho contínuo que envolve a prefeitura, a arquidiocese, universidades e a própria população.
Planejando Sua Visita a Mariana: Dicas Práticas de um Guia Experiente
Para quem se aventura por essas terras mineiras, algumas dicas são valiosas para aproveitar ao máximo a experiência em Mariana e seu acervo sacro:
- Melhor Época para Visitar: A primavera (setembro a novembro) e o outono (março a maio) oferecem temperaturas amenas e menor incidência de chuvas, ideais para caminhadas. No inverno, as manhãs são frias, mas os dias costumam ser ensolarados.
- Acesso e Transporte: Mariana fica a cerca de 100 km de Belo Horizonte. O acesso de carro é fácil. Também é possível chegar de ônibus de BH ou Ouro Preto. Uma experiência clássica é pegar o Trem da Vale de Ouro Preto para Mariana, uma viagem cênica de cerca de 1 hora que oferece vistas deslumbrantes. Consultar os horários com antecedência é crucial, pois podem variar. Em geral, o preço da passagem do trem gira em torno de R$ 60 a R$ 100, dependendo da classe.
- Horários das Igrejas: As igrejas têm horários de visitação que podem variar. É fundamental checar no site da Arquidiocese de Mariana ou diretamente nos postos de informação turística. Muitas fecham para almoço e reabrem à tarde. Algumas cobram uma pequena taxa de manutenção (aproximadamente R$ 5 a R$ 10 por igreja), que ajuda na conservação do patrimônio.
- Guias Locais: Contratar um guia credenciado como eu é, na minha humilde opinião, a melhor forma de aprofundar a experiência. Vou além dos nomes e datas, contando as histórias, as lendas, os detalhes que escapam ao olhar desatento.
- Hospedagem e Gastronomia: Mariana oferece pousadas charmosas e restaurantes com a típica culinária mineira. Não deixe de provar um bom pão de queijo e um doce de leite caseiro.
Perguntas Frequentes
Por que Mariana foi a primeira capital de Minas Gerais?
Mariana, então Arraial de Nossa Senhora do Carmo, foi elevada a cidade e capital da Capitania de Minas Gerais em 23 de abril de 1745 por ordem de D. João V. Isso se deveu à sua importância econômica e populacional como um dos primeiros e mais ricos centros da corrida do ouro, além de possuir um plano urbanístico mais organizado para a época.
Quanto tempo Mariana foi capital e por que perdeu esse status?
Mariana permaneceu como capital da Capitania de Minas Gerais por aproximadamente 15 anos, de 1745 a 1760. Perdeu o status para Vila Rica (atual Ouro Preto), que se tornou um centro econômico e político ainda mais proeminente devido à sua maior produção de ouro e ao crescimento populacional, além de ser mais central para a administração da capitania.
Quais são as principais igrejas de Mariana?
As principais igrejas de Mariana que formam seu valioso acervo sacro são a Catedral Basílica Nossa Senhora da Assunção, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo e a Igreja de São Francisco de Assis, que formam o famoso conjunto da Praça Minas Gerais. Outras igrejas importantes incluem a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e a Capela de Santo Antônio.
É possível visitar Mariana em um bate e volta de Ouro Preto?
Sim, é perfeitamente possível visitar Mariana em um bate e volta de Ouro Preto. As cidades são bastante próximas, e a viagem de carro ou ônibus é rápida (cerca de 15-20 minutos). Muitos optam por ir de Trem da Vale, que oferece uma experiência cênica única entre as duas cidades. Para ver as principais igrejas e atrações, um dia é suficiente, mas um pernoite permite uma visita mais tranquila.
O que Aleijadinho e Mestre Ataíde fizeram em Mariana?
Manuel da Costa Ataíde tem trabalhos importantes na Catedral Basílica, onde iniciou sua carreira, e na Igreja de São Francisco de Assis, com pinturas no teto. Aleijadinho é atribuído a projetos de altares laterais (retábulos) na Igreja de São Francisco de Assis e elementos decorativos na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, contribuindo significativamente para a talha e a escultura dessas igrejas.
Conclusão
Visitar Mariana: A Primeira Capital de Minas Gerais e Seu Acervo Sacro é muito mais do que um passeio turístico; é uma imersão profunda nas raízes da identidade brasileira. É sentir o peso da história nas ruas de pedra, admirar a fé e a genialidade dos mestres do barroco mineiro, e compreender como a opulência do ouro se transformou em arte. Como a equipe editorial, sou testemunha do impacto que Mariana exerce sobre cada viajante. É um convite irrecusável a se perder (e se encontrar) na beleza e na história de um Brasil que, se não fosse por essas terras e por esses templos, seria hoje uma nação muito diferente. O legado de Mariana é um tesouro nacional, um lembrete vívido da riqueza cultural e espiritual que precisamos valorizar e preservar para as futuras gerações.
Fontes consultadas:
- Sergio Milliet, História da Arte Brasileira. São Paulo: Martins, 1939.
- Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, O Aleijadinho e Sua Oficina: Catálogo das esculturas devocionais. Belo Horizonte: C/Arte, 2002.
- João Camilo de Oliveira Torres, História de Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1972.
- IPHAN — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
- UNESCO World Heritage Centre — Ouro Preto
- IBRAM — Instituto Brasileiro de Museus