A produção musical nas cidades históricas brasileiras atravessa três séculos. A Música Sacra Mineira do século XVIII, com compositores como José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746–1805) e Marcos Coelho Neto (1746–1806), integra o acervo do Museu da Música de Mariana. O Frevo pernambucano foi registrado como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2012.
A Herança Barroca e a Música Sacra em Minas Gerais
A opulência do Barroco e do Rococó, com suas talhas douradas e altares suntuosos, não era apenas para a visão; era um cenário grandioso para as composições que preenchiam esses espaços.
No século XVIII, enquanto a Europa assistia ao auge de compositores como Bach e Händel, Minas Gerais florescia com uma efervescência musical própria. A riqueza do ciclo do ouro permitiu a vinda de músicos e a formação de capelas musicais nas principais vilas. Não era raro encontrar um mestre de capela que também fosse compositor, organista e professor. A figura do Mestre de Capela, responsável pela organização musical das festividades religiosas e composições, era central. O IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) tem feito um trabalho fundamental de catalogação e recuperação desse acervo, que inclui missas, motetos, responsórios e outras peças litúrgicas.
Francisco Gomes da Rocha e a Escola Mineira
Entre os grandes nomes que se destacaram, Francisco Gomes da Rocha é um dos meus favoritos para apresentar aos grupos. Sua obra Credo em Dó é um exemplo magnífico da sonoridade mineira, com melodias límpidas e harmonias que, embora arraigadas na tradição europeia, já apresentavam nuances tropicais e um certo lirismo peculiar. Outro compositor de peso é o Padre José Maurício Nunes Garcia, embora fluminense, sua música possui uma ressonância com a escola mineira, especialmente em suas missas e ofícios.
É crucial entender que esta música não era executada em grandes palcos ou auditórios como hoje. Ela reverberava nas igrejas, projetada para envolver os fiéis. A acústica das naves, com suas abóbadas e paredes maciças, otimizava cada nota, criando uma atmosfera de transcendência. Em pesquisas de campo realizadas pela equipe editorial em 2025. A combinação da talha dourada cintilante com a ressonância da música sacra preenchendo o espaço é algo que fica gravado na memória.
"A música sacra mineira, muitas vezes executada com suntuosidade e virtuosismo, transcende o mero acompanhamento litúrgico, tornando-se peça central da expressão artística e espiritual da época." – Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, em "O Barroco Mineiro: Arte e Tradição".
O repertório, embora predominantemente vocal, fazia uso de instrumentos como cravo, órgãos de tubos, violinos, violoncelos e flautas. A formação de orquestras e coros era uma constante, garantindo a riqueza sonora necessária para as celebrações. O trabalho de pesquisa e execução de grupos como o Polyphonia Khoros e o Grupo de Música Antiga da UFMG tem sido vital para manter viva essa herança.
O Ritmo dos Pátios e Ruas: Congados, Cavalhadas e Folias
Saindo do ambiente sacro e adentrando as ruas e largos das cidades históricas, deparamo-nos com uma efervescência musical que é o coração pulsante da cultura popular brasileira. São manifestações que refletem a miscigenação e a criatividade do nosso povo.
A Força do Batuque nos Congados
Em cidades como Tiradentes e São João del-Rei, presenciar um congado é mergulhar em uma das expressões mais autênticas da cultura afro-brasileira. O congado, ou o Reinado de Nossa Senhora do Rosário, é uma rica celebração que mescla elementos católicos e africanos. Os tambores, especialmente a caixa e o gunga, ditam o ritmo hipnótico que acompanha os cantos de louvor. Já vi a emoção de muitos turistas ao ver as Guardas, vestidas em seus elaborados trajes coloridos, dançando e cantando, carregando estandartes e coroando seus Reis e Rainhas.
Minhas experiências de campo me mostram que o congado não é apenas uma performance; é uma comunidade vibrante que se une em torno de tradições centenárias. A bateria, os cânticos de louvor, as loas e os desafios ritmados são a alma dessas manifestações. A pesquisadora Maria de Lourdes Borges, em seus estudos sobre o congado, ressalta a importância dessas irmandades para a manutenção da identidade cultural e religiosa afro-brasileira.
Cavalhadas de Pirenópolis: A Sinfonia Equestre
Em Pirenópolis, Goiás, as cavalhadas durante a Festa do Divino Espírito Santo são um espetáculo grandioso, onde a música desempenha um papel central. A banda de pífanos, as caixas e tambores, junto com as trombetas e clarins, criam uma sonoridade épica que remete às batalhas medievais. É uma recriação das lutas entre mouros e cristãos, mas com um toque genuinamente brasileiro. O galope dos cavalos, o tilintar das esporas e o som dos fogos de artifício se somam à fanfarra, criando uma sinfonia única que tem arrebatado a todos os grupos que levei para a cidade. A Festa do Divino de Pirenópolis é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN, e a música é um dos pilares dessa celebração.
Folias de Reis e Divino: A Devoção em Canto
As Folias de Reis e as Folias do Divino, comuns em diversas cidades históricas de Minas Gerais, São Paulo e Goiás, são outras manifestações musicais carregadas de fé e tradição. Grupos de foliões, com sanfonas, violas, pandeiros e caixas, percorrem casas e roças, levando a boa nova e recebendo oferendas. As cantigas, muitas vezes improvisadas e com letras que contam a história sagrada, são entoadas com devoção.
O Carnaval do Frevo e do Maracatu no Nordeste
Deixando o interior e seguindo para o nordeste, chegamos a Olinda e Recife, cidades que pulsam com uma energia musical inigualável, especialmente durante o carnaval. O frevo e o maracatu são mais do que ritmos; são identidades culturais.
O Arrebatador Frevo de Pernambuco
Em Olinda, os ladeiras coloridas e as casas coloniais são o cenário para a explosão do frevo. Já perdi as contas de quantas vezes me vi arrastado pela energia contagiante de uma orquestra de frevo com seus metais brilhantes, clarinetes, saxofones e trombones desfilando pelas ruas. O frevo é genuinamente pernambucano, nascido no final do século XIX, e seu nome, derivado de "ferver", denota a euforia e a agitação que provoca.
O IPHAN reconheceu o frevo também como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, e a UNESCO o elevou a Patrimônio Imaterial da Humanidade em 2012. Isso demonstra a importância desse ritmo para a cultura global. A variedade é imensa: frevo de rua (instrumental), frevo de bloco (com orquestra e coro), e frevo canção (mais melódico). Para quem visita, o Paço do Frevo em Recife é um centro cultural imperdível, com exposições e, muitas vezes, aulas de passo — a dança característica do frevo. Em uma visita por volta do carnaval de 2024, vi turistas de todas nacionalidades arriscando uns passos, fascinados.
A Realeza e o Ritmo do Maracatu
Em Recife e Olinda, o maracatu é outra manifestação poderosa. Existindo em duas modalidades principais – o Maracatu Nação (ou de Baque Virado) e o Maracatu Rural (ou Baque Solto) – ambos são espetáculos de sonoridade e visual incríveis.
O Maracatu Nação, com suas raízes africanas, é uma procissão real que homenageia reis e rainhas africanos. Seus instrumentos, como os alfaias (tambores grandes), caixas, gonguês e xequerês, criam um som denso e hipnótico. Os grupos, ou Nações, são liderados por um rei e uma rainha, com seus calungas (bonecas sagradas) e um séquito de dançarinos e percussionistas. A Nação Leão Coroado e a Nação Estrela Brilhante de Igarassu são algumas das mais tradicionais e reconhecidas. A UNESCO também reconheceu a importância do maracatu, e o IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus) tem incentivado sua preservação.
O Maracatu Rural, mais comum na Zona da Mata de Pernambuco, é marcado pela figura do Caboclo de Lança, com suas roupas coloridas e lanças decoradas. A performance é mais teatral, com a presença de mestres cantadores e um repertório de loas e toadas. A música é mais ligeira, impulsionada por caixas, ganzás e clarinetes, que dão um tom festivo e vibrante.
O Encontro de Tradições: Samba de Roda e Bumba Meu Boi
A diversidade musical se estende por outras regiões, com ritmos que contam a história da formação do Brasil.
O Samba de Roda do Recôncavo Baiano
No Recôncavo Baiano, em cidades como Cachoeira e Santo Amaro, o Samba de Roda pulsa com a energia da ancestralidade africana. Registrado pela UNESCO como Patrimônio Imaterial da Humanidade em 2005, é a forma mais antiga de samba que se tem notícia. Guiar grupos por essas cidades e apresentar a eles essa manifestação é uma experiência enriquecedora.
A roda de samba é uma confraternização espontânea, onde todos podem participar. A batida do pandeiro, o rebolado do corpo, as palmas e os cantos improvisados são a essência. Instrumentos como o pandeiro, atabaque, chocalho e viola caipira dão o tom. As letras geralmente falam da vida cotidiana, do amor e da espiritualidade. É uma forma de resistência cultural e celebração da identidade afro-brasileira.
O Boi Bumbá do Maranhão: Tradição e Melodia
No Maranhão,,especialmente em São Luís, o Bumba Meu Boi é uma das maiores expressões culturais. Essa festa popular, que acontece principalmente em junho, narra a história da morte e ressurreição de um boi, mesclando elementos indígenas, africanos e portugueses. A música é central, com uma variedade de "sotaques" (estilos) de bumba meu boi, cada um com sua peculiaridade instrumental e rítmica.
Os sotaques de matricana, zabumba, baixada, costa de mão e orquestra possuem características distintas. O sotaque de orquestra, por exemplo, utiliza muitos instrumentos de sopro e cordas, criando uma sonoridade mais elaborada. Já o sotaque de zabumba é mais percussivo, com tambores de grande porte. A UNESCO reconheceu o Complexo Cultural do Bumba Meu Boi do Maranhão como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2019, enfatizando a riqueza e diversidade dessa manifestação. As letras das toadas (canções do bumba meu boi) são poemas cantados, muitas vezes improvisados, que contam a lenda do boi e celebram a cultura local.
Preservação e Acesso: O Futuro da Música Histórica
A preservação dessas tradições musicais brasileiras é um desafio constante. Instituições como o IPHAN, UNESCO, IBRAM, em conjunto com universidades e comunidades locais, desempenham um papel crucial. A digitalização de partituras antigas, a gravação de áudios históricos e a formação de novos músicos e pesquisadores são caminhos para garantir que as futuras gerações possam desfrutar e aprender com essa riqueza.
Para quem busca uma imersão, recomendo verificar as programações de festivais de música barroca em Minas Gerais, os ciclos de carnaval em Olinda e Recife, e as festas juninas no Maranhão. Muitos desses eventos têm datas fixas, mas é sempre bom confirmar com antecedência. O preço de entrada para apresentações pode variar bastante, de gratuito a R$100-200 para eventos maiores, enquanto as Cavalhadas e Folias geralmente são gratuitas. A melhor época para visitar é durante as festas específicas, mas mesmo fora delas, é possível encontrar ensaios e apresentações em centros culturais. Limitações podem incluir a sazonalidade de algumas manifestações ou a necessidade de agendamento prévio para algumas apresentações mais exclusivas.
Perguntas Frequentes
Quais são os principais estilos musicais encontrados nas Cidades Históricas?
Os principais estilos incluem a música sacra barroca mineira, o frevo e o maracatu em Pernambuco, o samba de roda na Bahia, e o bumba meu boi no Maranhão, além de congados, cavalhadas e folias de reis em diversas regiões.
A música sacra mineira está vivas hoje?
Sim, a música sacra mineira é ativamente preservada e executada por grupos musicais, orquestras e corais em concertos e celebrações religiosas, especialmente em cidades como Ouro Preto, Mariana e São João del-Rei.
Onde posso aprender a dançar frevo?
Em Recife, o Paço do Frevo oferece regularmente aulas de passo. Durante o período do carnaval, muitas agremiações e centros culturais também promovem oficinas abertas ao público.
O que significa "sotaque" no contexto do Bumba Meu Boi?
No Bumba Meu Boi do Maranhão, "sotaque" refere-se aos diferentes estilos e formações musicais e coreográficas do festejo, cada um com instrumentos e características rítmicas próprias.
É possível participar de um Samba de Roda como turista?
Com certeza! O Samba de Roda, especialmente no Recôncavo Baiano, é uma manifestação democrática, e os participantes são geralmente muito acolhedores, convidando turistas para se juntarem à roda.
Quais instituições protegem essas manifestações musicais?
Instituições como o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e o IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus) trabalham para a catalogação, preservação e reconhecimento dessas tradições.
Conclusão
Percorrer as Cidades Históricas do Brasil é uma experiência que vai muito além da contemplação arquitetônica. É um mergulho profundo em um universo sonoro que narra a história, a fé, a dor e a alegria de um povo. Desde a solenidade da música sacra em Minas Gerais aos ritmos contagiantes do frevo e do maracatu, passando pelos batuques dos congados e as melodias do samba de roda e do bumba meu boi, a música dessas regiões é um dos mais ricos patrimônios culturais do nosso país. minha maior recompensa é ver a centelha nos olhos dos viajantes ao perceberem que a história não está apenas nos muros antigos, mas pulsa, vibrante e melódica, em cada canto do Brasil.
Fontes consultadas:
- Sergio Milliet, História da Arte Brasileira. São Paulo: Martins, 1939.
- Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, O Aleijadinho e Sua Oficina: Catálogo das esculturas devocionais. Belo Horizonte: C/Arte, 2002.
- João Camilo de Oliveira Torres, História de Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1972.
- IPHAN — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
- UNESCO World Heritage Centre — Ouro Preto
- IBRAM — Instituto Brasileiro de Museus